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Conto “O Sono e a Insónia”

  • Foto do escritor: Pedro Bandos
    Pedro Bandos
  • 19 de dez. de 2025
  • 9 min de leitura

Havia uma vez, numa encruzilhada entre o dia e a noite, dois seres que viviam uma luta eterna. Um deles era o Sono, um homem de gestos calmos, olhos profundos como poços de água escura, voz morna como a brisa que toca as folhas nas horas tardias. O outro era a Insónia, uma mulher de arestas afiadas, risos que cortavam como vidro, olhos que nunca fechavam, sempre alerta, sempre inquieta, sempre a procurar brechas pelas quais derramar o seu veneno de pensamentos acelerados.

Durante séculos, tinham dançado uma dança de combate, abraçando-se como inimigos que se entendem demasiado bem. Mas havia uma noite, uma noite de Natal, quando o Sono decidiu que já não era suficiente apenas lutar. Era tempo de conquistar, não pela força bruta, mas pela compreensão. Era tempo de transformar a Insónia.


Na extremidade mais profunda do mundo humano, existia um palácio. Não era feito de pedra nem de ouro — era feito de silêncio e de luz azulada, daquela luminescência que existe entre as estrelas e os sonhos. Ali vivia o Sono, numa câmara vastíssima, cercada por portas. Cada porta levava a um quarto diferente, a um coração diferente, a uma mente que esperava por ele.


Naquela noite de Natal, o Sono estava sentado à sua mesa de trabalho — uma mesa que parecia ser de vidro congelado — e olhava para um grande mapa. Era um mapa de todos os corações humanos que ainda não dormiam. Entre eles, via um que brilhava com uma luz especial: era o coração de Ananda, o velho monge ligado aquela noite que se tinha transformado num nascimento.

Mas havia uma perturbação naquele mapa. Junto a Ananda, pairava a silhueta escura de uma mulher. Era a Insónia, a sua eterna adversária, tentando impedir que o monge encontrasse repouso após aquela noite tão plena de emoção.


O Sono respirou fundo. Conhecia bem o poder da Insónia. Sabia como ela sussurrava: “Lembra-te de cada palavra que disseste... E se o bebé morrer? E se a mãe te odiar? E se nunca mais conseguires meditar em paz?” Sabia como ela trazia consigo torrentes de pensamentos, como um rio cheio durante a cheia, arrastando consigo ramos, folhas, pedras, tudo quanto o coração tinha tentado deixar ir.

Levantou-se com lentidão e caminhou até uma das portas. Nela estava escrito: “Ananda de Portugal, 24 de Dezembro de 2025, 2:47 da madrugada.”


Entrou.

Ananda estava deitado, mas bem acordado. O seu corpo respirava a fatiga, os olhos fixavam o tecto de madeira, a mente num turbilhão. A Insónia estava sentada no pé da cama, um sorriso cruel nos lábios finos.

— Olá, Ananda — sussurrou ela, inclinando-se para a frente. — Que noite interessante a tua. Mas, diz-me: conseguiste realmente ajudar aquele bebé? Ou apenas acreditaste que ajudaste, enquanto, na verdade, a doença cedeu por acaso?

Ananda voltou-se, fechando os olhos com força. A Insónia riu-se, um riso que soava como vidro partido.

— E aquela mãe... Aposto que, agora, vai depender de ti. Vai subir o monte todos os dias, pedindo a tua bênção. Que pressão. Que responsabilidade.

O monge sentia-se preso. Passava as mãos pelo cabelo, mudava de posição, tentava contar respirações, mas nada funcionava. A Insónia tinha conseguido mais uma vez. Ele ia passar a noite inteira acordado, consumido por dúvidas e revisitações mentais do passado.

Então, de repente, a porta abriu-se.

Entrou o Sono.


Não veio em fúria, nem com intenção de expulsar a Insónia à força. Simplesmente, caminhou até Ananda e estendeu-lhe a mão. Na outra mão, trazia uma lista de papel creme, muito bem escrita, com uma caligrafia antiga e meditada.

— Ananda — disse o Sono, com uma voz como o sussurro das rosas ao amanhecer — vou ajudar-te. Mas só se tu o quiseres verdadeiramente.

A Insónia fez um ruído de desdém.

— Mais uma derrota para ti, Sono? Ele vai sofrer a noite inteira, como de costume.

O Sono ignorou-a. Virou-se para o monge:

— Levanta-te. Temos trabalho a fazer.

Ananda levantou-se, confuso, mas seguindo o Sono. Este levou-o até à secretária do quarto e ali estendeu uma folha de papel e uma caneta de pena.

— Primeira ferramenta — disse o Sono, com uma segurança calma — é fazer uma lista. Não uma lista de preocupações, mas uma lista de intenções. Planeia tudo aquilo que farás amanhã. Cada tarefa, cada encontro, cada momento. Escreve como se estivesses a contar uma história que já conheces o final, porque, de facto, conheces.

A Insónia burlou-se:

— Está tudo bem, está tudo bem, enquanto ele escrever, mas quando deitar a cabeça, a minha voz voltará!

O Sono não respondeu. Apenas colocou a caneta na mão de Ananda.

O monge começou a escrever:

“Amanhã, no amanhecer:— Meditação matinal no templo, 6:00— Preparar chá com os noviços, 7:00— Verificação do caminho para a casa do rio — ofertar um saco de arroz à mãe, 9:00— Lições aos jovens sobre os textos antigos, 11:00— Almoço silencioso, 13:00— Trabalho na horta, 15:00— Preparação das velas para a meditação nocturna, 17:00— Canto com os irmãos, 19:00— Chá final e repouso, 21:00”


Enquanto escrevia, sentiu algo a relaxar no seu peito. A lista não era uma prisão; era uma corda de salvação. Não era uma garantia de que tudo correria bem, mas era um testemunho de que tinha controlo sobre o que podia controlar. E o resto, aquilo que não podia prever, deixaria que viesse quando chegasse.


A Insónia moveu-se na sombra, sentindo a sua influência a diminuir.

— Ainda não desisti — rosnou.


O Sono caminhou até uma prateleira e retirou um álbum espesso, encadernado em couro castanho, com as páginas amareladas de tanto uso. O seu cheiro era doce, a mistura do papel antigo com a vida vivida.

— Segunda ferramenta — disse o Sono, entregando-o a Ananda — as tuas fotografias. As tuas memórias. Tudo aquilo que já conquistaste, que já viveste, que te prova que és mais forte do que qualquer noite escura.

Ananda abriu o álbum.

Ali estava ele, criança, rodeado de primos numa propriedade rural, todos a rir debaixo de uma figueira. Reconheceu a sua própria inocência naqueles olhos. Passou para a página seguinte: a sua mãe, abraçando-o no dia em que professou os seus votos monásticos, com lágrimas nos olhos, mas um sorriso de orgulho. Depois, a sua entrada no mosteiro, cercado de irmãos. Colegas que tinham envelhecido com ele, que tinham sofrido com ele, que o tinham ajudado.

Havia fotografias de viagens. Uma em particular o tocou profundamente: uma festa de Ano Novo, onde tinha dançado — sim, dançado! — ao som de tambores, com aldeões que o conheciam desde havia décadas. Havia também fotografias de trabalho, de monges mais jovens que ensinara, alguns deles agora mestres.

— Vê — disse o Sono, apontando para as imagens — tudo isto já aconteceu. Já sobreviveste a tudo isto. Já sentiste amor, já celebraste, já sofreste e continuaste a existir.

Ananda virou a página lentamente, tocando as faces nas fotografias, como quem toca cicatrizes antigas.

A última página tinha apenas uma imagem: era a de Ananda, mais jovem, deitado numa cama de hospital, magro e pálido, durante uma doença grave. Mas ao lado dela estava uma nota, escrita pela sua própria mão, muitos anos depois: “Superaste isto também. Cada noite escura já foi superada. Esta será diferente, porque agora sabes o caminho.”


A Insónia tentou sussurrar novamente, mas sua voz era mais fraca:

— Sim, mas e se o que vem for pior? E se...


O Sono colocou o álbum sobre o peito de Ananda.

— O teu corpo conhece a memória. Deixa que ele se lembre de que já sobreviveu.


O Sono guiou Ananda até à mesa de cabeceira e ali, num gesto suave, colocou um caderno de páginas em branco, com uma caneta ao lado.

— Terceira ferramenta — disse — este caderno é para os pensamentos que vêm à noite. Todos aqueles pensamentos que fazem a Insónia sorrir, que te mantêm acordado.

— Eu cá fico — disse a Insónia, com uma voz mais aguda agora, quase histérica.

O Sono continuou:

— Escreve-os. Todos. Sem filtro. Sem vergonha. Deixa-os sair da tua mente e coloca-os na página. Quando os vires escritos, deixarão de ser monstros invisíveis. Tornar-se-ão apenas palavras.

Ananda pegou na caneta e começou:

“Penso que não ajudei realmente aquele bebé.Tenho medo de que aquela mãe fique decepcionada comigo.Sou um velho. Quem sou eu para ensinar qualquer coisa?E se a vida me passar ao lado sem eu nunca ter realmente compreendido nada?Sinto-me sozinho, mesmo cercado de irmãos.Ainda quero, aos 70 anos, ser alguém. Por quê?Será que toda a minha vida de meditação foi apenas uma fuga?”

Enquanto escrevia, as palavras ganhavam um peso diferente. Deixavam de ser sussurros cruéis no escuro; tornavam-se confissões, e as confissões têm poder de cura. Cada linha que traçava era um fardo retirado dos ombros.


A Insónia começou a diminuir, a sua silhueta a desbotar nas sombras do quarto.

— Não... — protestou fraco. — Ainda posso...


O Sono dirigiu-se a uma prateleira onde havia muitos livros. Escolheu um com cuidado especial: era uma edição antiga de Sidarta, de Hermann Hesse, com as páginas amareladas e as margens cheias de anotações à mão.


— Quarta ferramenta — disse o Sono, entregando-o a Ananda — um livro. Não qualquer livro, mas aquele que já conheces, que já leste, que já tocou o teu coração. Lê alguns parágrafos. Deixa que as palavras dos grandes sábios adormecidos sustentem a tua mente.

Ananda abriu o livro e encontrou a passagem que o Sono sabia que estava à sua procura:

“Sidarta tinha contato com grande número de venerandos brmanes e, em primeiro lugar, com seu pai, homem puro, letrado, sumamente digno de reverência. Admirável, sim, era o pai, no seu comportamento calmo, distinto. Pura era sua vida ponderada...”

Mas não foi essa a parte que o tocou. Encontrou outra, mais adiante:

“Simples era a fisionomia do barqueiro, simples e feliz. Nenhuma sabedoria irradiava dele, nem presumia de conhecimentos. Simplesmente, ele estava presente, e cada dia fazia aquilo que lhe era dado a fazer.”

Ananda leu estas palavras três vezes. E, lentamente, sentiu o seu corpo a relaxar. Não era preciso ser perfeito. Não era preciso ter todas as respostas. Era suficiente estar presente.

A Insónia era agora apenas uma sombra no canto, quase invisível.


O Sono aproximou-se da pequena candeia que Ananda tinha deixado acesa ao lado da cama. Com um gesto delicado, uma brisa suave que vinha não se sabia de onde, apagou-a.

— Quinta ferramenta — disse o Sono — o silêncio das máquinas. O vazio das telas luminosas. Nada que brilhe, nada que sussurre, nada que chame a tua atenção para o mundo fora deste quarto.

A escuridão envolveu-os. Não era uma escuridão assustadora; era uma escuridão aconchegante, como o interior de um útero, como o seio de uma mãe.

A Insónia tentou fazer um último movimento, mas não tinha luz na qual existir. A luz é a sua aliada; a escuridão é a sua morte.


O Sono aproximou-se de Ananda e colocou uma mão no seu ombro.

— Última ferramenta — disse — o teu próprio ritmo. A tua própria vida. Respira, Ananda. Respira como respiraste naquela casa, junto àquele bebé. Respira como respiraste junto ao rio. Inspira profundamente. Segura por um momento. Expira lentamente.

Ananda começou. Inspira... Um, dois, três, quatro. Segura... Um, dois, três, quatro. Expira... Um, dois, três, quatro, cinco, seis.

Com cada respiração, o seu corpo relaxava. Com cada expiração, sentia como se libertasse mais uma corrente que o prendia.


E, naquela escuridão, naquele silêncio, com o caderno junto do coração, o álbum de memórias junto da almofada, a lista de amanhã junto do peito, e o livro sagrado a repousar nas mãos, o Sono inclinou-se sobre o monge.

— Dorme agora, Ananda — sussurrou. — Tu conquistaste-te a ti próprio. Não há lugar aqui para a Insónia.

Quando Ananda acordou, eram 6:00 da manhã. A luz dourada do nascimento do sol entrava pela janela. Tinha dormido oito horas ininterruptas, profundo, sem sonhos, ou talvez sonhos que já tinha esquecido — aquele tipo de esquecimento que significa que o corpo estava realmente em repouso.

Ao seu lado, sobre a cama, estavam ainda todos os artefactos que o Sono lhe havia oferecido. A lista estava ali, à espera para ser consultada. O álbum repousava na cabeceira, como um guardião silencioso. O caderno tinha páginas cheias de confissões, mas nenhuma delas o mantinha mais acordado. O livro tinha um marcador noutra página, naquela em que o Sono tinha escolhido deixá-lo.

Ananda levantou-se devagar, os membros descansados, a mente clara.


Ninguém via, ninguém sabia, mas naquela manhã, no palácio do Sono, longe no fim do mundo, o Sono estava sentado à sua mesa de vidro congelado, a escutar as notícias de todos os corações. O mapa mostrava que um coração em particular — o de Ananda — tinha iluminado com uma cor nova: ouro puro.


E, num canto do palácio, a Insónia suspirava, resignada, compreendendo que havia perdido aquela noite. Mas sabia que teria outras oportunidades, outras noites em que Ananda esqueceria a lista, ou negligenciaria o álbum, ou deixaria o caderno em branco, ou ligaria os ecrãs até tarde demais.

Mas agora, Ananda conhecia o caminho.

E cada noite que seguisse o ritual, cada noite que pegasse naquelas ferramentas do Sono, a Insónia desapareceria mais depressa.


Porque, na verdade, o Sono não oferecia apenas repouso. O Sono era um mestre. E a sua lição era simples e profunda:

O repouso não é o oposto do trabalho. É a recompensa pela vida bem vivida. É o abraço do universo, a reconhecê-lo como seu, para o qual merece ser acariciado durante algumas horas de escuridão doce.

Cada noite, Ananda executava o ritual. Com o tempo, tornou-se automático, tão natural quanto respirar.


E, de facto, cada vez que respirava profundamente, ao anoitecer, o Sono sussurrava-lhe ao ouvido:

— Bem-vindo de volta.

E a Insónia, cada vez mais fraca, desaparecia para atormentar outros, outras almas que ainda não tinham aprendido a confissão, a memória, a intenção, a leitura, o silêncio e a respiração profunda.


Na história de Ananda e no palácio do Sono, a verdade eterna ressoava:

Não é a fuga que traz repouso. É a presença. É viver cada dia tão plenamente que, quando a noite chega, o corpo e a mente estão prontos para se render à escuridão.


Tal como o rio ensina, ao fluir constantemente, que o repouso não é uma pausa — é o próprio movimento.


FIM

 

 

 
 

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